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outubro 6, 2026
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Por que a culpa costuma recair sobre quem sofre o abuso, e não sobre quem o pratica? Taiza Tosatt Eleoterio esclarece

Taiza Tosatt Eleoterio

O deslocamento da culpa, como observa Taiza Tosatt Eleoterio, psicanalista com atuação em apoio a mulheres e famílias em situação de vulnerabilidade, é um dos aspectos mais cruéis da dinâmica abusiva e também um dos mais difíceis de desfazer, mesmo depois que a relação já terminou. Muitas mulheres carregam, por anos, um sentimento de responsabilidade por algo que nunca deveriam ter vivido. Entender por que essa culpa se instala com tanta força ajuda a começar o processo de desconstruí-la, o que raramente acontece de forma rápida ou espontânea. 

Esse trabalho costuma exigir tempo e repetição, já que a crença de ser, de alguma forma, responsável pelo próprio sofrimento não se desfaz apenas com um único momento de clareza. 

Como o abusador constrói essa inversão de responsabilidade?

Ao longo de uma relação abusiva, é comum que o parceiro atribua à vítima a responsabilidade por seus próprios comportamentos agressivos, com frases como “você que me provocou” ou “se você não tivesse feito isso, eu não teria reagido assim”. Repetida ao longo do tempo, essa narrativa começa a ser internalizada como verdade, mesmo quando, em outros momentos, a própria pessoa reconhece intuitivamente que algo naquela explicação não faz sentido.

Taiza Tosatt Eleoterio explica que essa inversão não acontece por acaso: é uma estratégia, muitas vezes inconsciente por parte do próprio abusador, que permite a ele evitar a responsabilidade pelos próprios atos, ao mesmo tempo em que mantém a vítima presa em um ciclo de autoquestionamento constante.

Por que a sociedade também contribui para esse deslocamento?

Além da dinâmica dentro da relação, perguntas como “por que ela não foi embora antes” ou “o que ela fez para ele reagir assim” também reforçam, socialmente, essa mesma inversão de culpa, colocando o foco no comportamento da vítima, em vez de questionar o comportamento de quem praticou o abuso. Essas perguntas, mesmo feitas por pessoas próximas e preocupadas, transmitem a ideia implícita de que havia algo que a mulher poderia ter feito diferente para evitar o que sofreu.

Taiza Tosatt Eleoterio pondera que esse tipo de pergunta, mesmo quando feita sem má intenção, reproduz um padrão de julgamento que já é, em si, uma forma de violência doméstica simbólica, já que cobra da mulher explicações que deveriam ser exigidas de quem efetivamente cometeu o abuso.

O impacto psicológico de carregar uma culpa que não é sua

Viver anos convencida de que era, de alguma forma, responsável pelo próprio sofrimento tem um custo emocional profundo. Essa culpa costuma corroer a autoestima, dificultar a formação de novos vínculos de confiança e até atrasar a busca por apoio, já que a pessoa pode acreditar que “não merece” ajuda para um problema que julga ter causado. Esse adiamento, por sua vez, prolonga desnecessariamente um sofrimento que já poderia estar sendo trabalhado com apoio adequado.

Taiza Tosatt Eleoterio destaca que esse peso emocional, quando não é elaborado, tende a se manifestar de formas indiretas, como ansiedade persistente, dificuldade de confiar em futuras relações e uma autocrítica desproporcional diante de erros comuns do dia a dia.

Como diferenciar responsabilidade real de culpa deslocada?

Reconhecer as próprias falhas dentro de uma relação é diferente de assumir responsabilidade por um abuso que nunca deveria ter acontecido. Toda relação tem imperfeições legítimas dos dois lados, mas o abuso em si, seja emocional, físico ou psicológico, é sempre escolha de quem o pratica, nunca consequência inevitável de algo que a outra pessoa fez. Confundir essas duas coisas é justamente o que mantém muitas mulheres presas a um sentimento de culpa que não lhes pertence.

Taiza Tosatt Eleoterio nota que essa distinção, embora pareça óbvia quando explicada, costuma ser difícil de sustentar internamente para quem viveu anos ouvindo o contrário, o que reforça a importância de um espaço de escuta capaz de ajudar a reorganizar essa percepção.

Como começar a desfazer essa culpa internalizada?

O primeiro passo costuma ser nomear, com clareza, que a responsabilidade pelo abuso pertence exclusivamente a quem o praticou. Esse reconhecimento, ainda que simples na teoria, exige um trabalho interno mais longo, já que crenças construídas ao longo de anos não se desfazem apenas com uma constatação racional, mas precisam ser revisitadas repetidamente até se tornarem, de fato, parte da forma como a pessoa se enxerga.

Contar com uma rede de apoio comunitário, seja por meio de grupos, amigos ou familiares dispostos a ouvir sem julgamento, também ajuda a substituir, aos poucos, a narrativa de culpa por uma compreensão mais justa do que realmente aconteceu na relação.

O que muda quando essa culpa é finalmente reconhecida como deslocada?

Quando a mulher consegue, com apoio adequado, reconhecer que a culpa nunca foi dela, algo importante se transforma: o espaço antes ocupado pela autoacusação passa a abrir caminho para um processo real de empoderamento feminino, construído sobre uma base mais verdadeira do que aconteceu.

Para Taiza Tosatt Eleoterio, esse processo de reconhecimento não apaga o sofrimento vivido, mas devolve à pessoa algo essencial: a clareza de que ela nunca foi responsável pelo abuso que sofreu, e que essa responsabilidade sempre esteve, e continuará estando, com quem o praticou. 

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